O Dilema dos Gastos Públicos: R$ 60 milhões para o show da Madonna

 

Madonna escolheu o Rio de Janeiro para encerrar sua turnê comemorativa de 40 anos de carreira
Madonna escolheu o Rio de Janeiro para encerrar sua turnê comemorativa de 40 anos de carreira Imagem: Reprodução

Um vídeo com o desabafo espontâneo de um cidadão não identificado em frente ao Copacabana Palace sobre os gastos investidos para o show da Madonna no Rio de Janeiro viralizou e provocou intenso debate nas redes sociais.
"É safadeza uma estrutura dessa, rapaz, investindo caro, R$ 60 milhões para Madonna andar daqui ali ó, cantar quatro músicas. E o povo sofrendo de fome, o povo sofrendo de estrutura, o trabalhador ganhando mil reais, e Madonna ganhando 60 milhões em um dia. A Madonna num hotel de luxo. E o povo? Sofrendo. O povo... saúde não tem, educação não tem, segurança não tem. Uma estrutura cara dessa aqui. Uma artista nem de casa nossa é, vem de fora. Dentro do Copacabana Palace, nosso dinheiro, nosso dinheiro. E o povo merece isso?

O povo merece sim e merece muito mais. Além de arte, diversão e lazer, o povo merece respeito por parte dos gestores públicos, estes sim, os principais responsáveis pelos direitos básicos à educação, saúde, segurança pública e também cultura.

O apoio às críticas do cidadão é reforçado justamente por sabermos, como brasileiros, que a riqueza produzida no país, incluindo no campo das artes, do turismo e do entretenimento, não são revertidos para atender as necessidades básicas da população. Apesar do caráter democrático da cultura, o acesso e os benefícios gerados seguem a mesma dinâmica de desigualdade que estrutura o país.

Show no Rio tem números estratosféricos

De fato, todos os números que envolvem a turnê de Madonna, que terá em Copacabana neste sábado (3) seu encerramento, são estratosféricos. Criada para celebrar os 40 anos de carreira da maior estrela da música pop mundial, The Celebration Tour foi lançada em outubro de 2023, em Londres, e percorreu 15 países atraindo multidões de fãs às 80 apresentações.

No Rio, única cidade a receber o show em área aberta e gratuita, a expectativa é que mais de 1,5 milhão de pessoas assistam presencialmente ao que tem sido chamado de maior público da história de Madonna, sem contar as transmissões ao vivo pela tv e internet.

Para montar toda a estrutura do espetáculo, que terá o maior palco da turnê e envolve mais de 200 profissionais que desembarcaram no Brasil junto com a cantora, serão investidos cerca de R$ 60 milhões, sendo 10 milhões da Prefeitura do Rio, mais 10 milhões do Governo do Estado e o restante entre os patrocinadores privados, o Itaú e a Heineken.

Desses R$60 milhões, R$17 milhões serão para pagar o cachê da diva pop. De acordo com a previsão da revista Billboard, The Celebration Tour vai render à Madonna mais de US$ 100 milhões, que se somarão à sua fortuna calculada em US$ 580 milhões (mais de R$ 3 bilhões).

Mas afinal tudo que envolve Madonna tem potencial estratosférico. Tem sido assim há quatro décadas. Não somente em termos de valores com a venda de discos, shows, livros, filmes e uma infinidade de peças e acessórios, mas principalmente no impacto cultural e político da artista.

Sinônimo de coragem e rebeldia, com suas performances artísticas e também posicionamentos fora dos palcos, Madonna capitaneou uma verdadeira transformação comportamental em direção à liberdade sexual e independência de gênero. Com isso ela se tornou uma das maiores representações das lutas por direitos das mulheres e das comunidades LGBTQIA+ no mundo.

Economia da cultura gera empregos e renda

Mesmo assim, a indignação do cidadão continua justa com aquela milionária estrutura sendo montada em sua frente e diante das ausências dos serviços públicos e dos direitos básicos que deveriam ser oferecidos pelos governantes.

A lista feita por ele inclui os mais urgentes problemas enfrentados pelas populações mais pobres do Brasil e do Rio de Janeiro, em especial: saúde, educação e segurança pública. Mas poderia ter também lazer e cultura, itens essenciais à dignidade humana e que também não são prioridades das políticas públicas. A exceção é quando surgem grandes propostas que envolvem apelo comercial e midiático do porte da Madonna e de outros mega festivais realizados na cidade.

Talvez, o que muitos que reclamam dos gastos com o show não saibam é que o acesso à arte e à cultura é também um direito humano fundamental e deveria ser permitido para todos. Mais do que isso, os investimentos em cultura geram valores e movimentam uma economia fantástica que possibilita a geração de emprego e renda para profissionais de diversas áreas e ainda retorna às empresas e aos cofres públicos por meio do consumo e dos impostos.

Além de poder educar, conscientizar e mobilizar pessoas, a arte gera riquezas. No Brasil, o mercado da cultura, ou da economia criativa, movimenta mais de R$230 bilhões por ano, o que representa perto dos 3% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro.

Isso significa produtos e serviços criados por artistas e uma infinidade de técnicos que pagam impostos, consomem e movimentam a economia. Esse retorno é que deveria ser empregado em mais acessos da população aos serviços públicos, seja a outras manifestações artísticas menos comerciais, seja em melhores condições das escolas, postos de saúde, saneamento básico, segurança pública etc.

A expectativa da Prefeitura do Rio de Janeiro é que o show da Madonna atraía mais de 150 mil turistas e movimente cerca de R$300 milhões para a economia da cidade. Ou seja, 15 vezes mais o que os cofres públicos estão investindo no evento.

Os cálculos são baseados em grandes eventos que ocorreram recentemente na cidade como o último Réveillon, que gerou mais de R$ 3 bilhões para a economia carioca, o Carnaval de 2024 outros R$5 bilhões, além dos shows realizados em novembro do ano passado, como o da cantora Taylor Swift, que renderam R$ 669,2 milhões, de acordo com informações dada à imprensa pela Prefeitura.

O problema é o retorno disso para aquele cidadão que estava revoltado no calçadão e que representa milhares de brasileiros para os quais o mínimo é negado. E a culpa não é do show da Madonna.

Mostrar sua indignação e fazer ecoar sua voz já é um passo importante, que precisa vir acompanhando da consciência política e da melhor escolha dos representantes que merecem seu voto e que poderão realmente priorizar o interesse público e os direitos dos cidadãos.

Talvez, se estivesse com um emprego digno, gozando de saúde, os filhos bem alimentados e estudando em uma boa escola, o cidadão poderia curtir melhor e livremente o show da Madonna na Praia de Copacabana e desfrutar de todos os impactos políticos e de encantamento estético que o espetáculo proporciona.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.





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