Petrobras perde R$ 55 bi após dividendo menor e temor de pressão de Lula

 

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As ações da Petrobras registraram forte queda nesta sexta-feira (8) após a divulgação do balanço de 2023 da petroleira, com lucro menor e pagamento de menos dividendos aos acionistas.

Com o temor dos investidores de pressão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre as decisões da companhia, a estatal perdeu mais de R$ 55 bilhões em valor de mercado.

Foi a maior queda no preço dos papéis da Petrobras desde fevereiro de 2021, quando o então presidente Jair Bolsonaro (PL) criticou reajuste do diesel em meio a ameaças de paralisação de caminhoneiros e, então, decidiu trocar o então presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, por Joaquim Silva e Luna.

As ações ações preferenciais (sem direito a voto) da Petrobras caíram 10,57%, enquanto as ordinárias (com direito a voto) recuaram 10,44% na Bolsa brasileira. No pior momento do dia, as preferenciais recuaram 13,1%, e as ordinárias caíram 14%, quando a empresa chegou a perder R$ 70 bilhões.

A companhia anunciou na noite desta quinta-feira (7) que encerrou 2023 —primeiro ano deste mandato de Lula na Presidência— com lucro líquido de R$ 124,6 bilhões, numa queda de 33,8% em relação aos R$ 188,3 bilhões registrados em 2022, quando havia batido recorde.

O número veio em linha com o esperado pelo mercado e seguiu o observado nos resultados de outras petroleiras globais.

Também foi fixada a distribuição de R$ 72,4 bilhões em dividendos ordinários para 2023. O valor ficou abaixo dos R$ 90 bilhões esperados pelo mercado e dos R$ 107 bilhões (pelo câmbio atual) pagos no último ano do governo Bolsonaro.

O que azedou o humor dos investidores foi o anúncio de que não haveria distribuição de dividendos extraordinários, como esperado.

O conselho decidiu que 100% desses recursos deveriam compor as reservas legais e estatutária, totalizando a retenção de R$ 43,9 bilhões.

A decisão de não pagar os dividendos extraordinários teria sido uma demanda sobretudo dos indicados pela gestão petista, segundo a agência de notícias Bloomberg.

Cinco membros do conselho nomeados pelo governo votaram contra os dividendos extras, com um sexto diretor que representa os trabalhadores, disseram pessoas que acompanham a empresa.

Segundo a agência de notícias Reuters, essa decisão partiu do próprio Lula, pois o governo quer que a empresa use para investimentos o dinheiro que seria destinado à remuneração extra aos acionistas.

A Reuters destaca que o tema foi discutido antes da reunião do conselho de administração pelo presidente da empresa, Jean Paul Prates, e pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.

Para que a Petrobras possa usar os recursos da reserva estatutária, o governo vai tentar mudar uma regra relacionada ao tema, segundo duas pessoas ouvidas pela agência.

O risco político foi identificado inclusive por investidores internacionais, com os papéis perdendo valor também em Nova York (EUA) e Frankfurt (Alemanha).

No exterior, a tensão se refletiu nos ADRs (recibos de ações brasileiras negociadas nos EUA) e também nos papéis da Alemanha, que nos países caíram mais de 11%.

A avaliação entre quem acompanha a estatal é que o saldo do dia foi de uma derrota para Prates, que defendeu o pagamento dos dividendos extras junto ao conselho.

Em conferência com investidores e analistas, bem como em entrevista coletiva, os executivos da Petrobras fizeram um esforço para desmentir essa versão.

O diretor financeiro e de relacionamento com investidores da Petrobras, Sergio Caetano, afirmou que os dividendos extraordinários da estatal retidos não serão redirecionados para investimentos.

Ele reiterou inúmeras vezes que a finalidade é assegurar recursos para o pagamento de dividendos, juros sobre o capital próprio, suas antecipações e recompras de ações.

Caetano, no entanto, disse que não foi fixado um prazo para o pagamento, que ainda está em análise. "Recursos podem passar para dividendos a qualquer momento", afirmou o diretor.

"A reserva foi criada para equalizar pagamento de dividendos. Essa reserva não será destinada para investimentos. Não é para acordo tributário ou para fusão. Não está destinada para tapar prejuízo, que não está nos cenários. Foi destinada para dividendos e será usada para dividendos", reafirmava enquanto as ações derretiam.

O executivo também reforçou que não haverá mudança na política de remuneração dos acionistas.

Em diferentes momentos em que tratou do tema dos dividendos ao longo do dia, os dirigentes reforçaram que o conselho optou por fazer a reserva de 100% dos recursos observando o cenário de fortes investimentos para 2024 e 2025 e considerou mais prudente fazer a reserva com a totalidade do capital.

Também negaram que exista a expectativa de prejuízo nesse período, que possa comprometer a geração de novos dividendos.

Segundo Caetano, o aumento do endividamento bruto no ano passado, da ordem de 8%, fica dentro do limite. "Controle de dívida é uma prioridade, e não vamos superar o limite de R$ 65 bilhões", afirmou.

Disse ainda que aumento refletiu, em parte, o efeito da inflação global na contratação de bens e equipamentos e também a antecipação de custos para viabilizar a entrada em operação de uma plataforma.

Já Prates complementou que um dos acionistas relevantes da estatal é a União, e que ela também não receberá o recurso.

No encontro, os investidores quiseram entender o processo de decisão e a lógica dos integrantes do conselho para reter os dividendos extraordinários, bem como a participação do governo na decisão. Os executivos, porém, disseram que não poderiam comentar os detalhes.

Prates, no entanto, negou de forma veemente que tenha ameaçado entregar o cargo por entrar em desacordo com o conselho sobre o pagamento de dividendos, informação que chegou a circular. "É uma novela danada. A pessoa [que disse isso] tem uma criatividade gigantesca", afirmou.

"A minha tendência sempre é responder que não comento reuniões de conselho. Essas reuniões sempre geram duas coisas, além de resultados: falsas informações e vazamentos. São coisas diferentes, vazar o que aconteceu e criar em cima do que não aconteceu. Nesse caso, claramente, criou-se em cima do que não aconteceu."

"Vamos esclarecer: a proposta da diretoria que subiu para o conselho era salomônica: 50%-50%", afirmou.

Os analistas financeiros, inclusive, aguardavam a distribuição de 50% dos dividendos extraordinários, porque entendiam que eram endossados pela diretoria, segundo relatos feitos à Folha ainda na quinta-feira. Não estava no radar da maioria que o conselho poderia barrar a sugestão da diretoria.

Prates afirmou que entendeu a reação do mercado de ações. "Não vejo exagero. Não vejo histeria", disse, reafirmando acreditar que será possível reverter a queda no valor das papéis à medida que a companhia sane as dúvidas que surgirem.

Ele também relembrou que conta de reserva para remuneração de capital é uma novidade, criada numa mudança estatutária recente, e é natural que os investidores tenham dúvidas.

No mercado, o balanço e as decisões sobre dividendos foram tratadas por analistas, que tinham projeções diversas.

Analistas do Itaú BBA, por exemplo, destacaram que investidores esperavam cerca de R$ 22 bilhões em dividendos extraordinários.

"O consenso era que os dividendos extraordinários ficassem entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões (R$ 14,9 bilhões e R$ 24,9 bilhões), e a decepção do mercado deve aumentar preocupações entre investidores sobre o futuro da alocação de capital da empresa", diz o BBA.

Após o anúncio da petroleira, o Bradesco BBI, Santander e Bank of America rebaixaram sua recomendação sobre a Petrobras para "neutra".

Já analistas do BTG Pactual afirmam que a decisão de reter os dividendos extraordinários devem aumentar a percepção de risco, mas mantiveram a recomendação de compra para as ações da companhia.

O tombo da Petrobras, que é uma das empresas de maior peso da Bolsa brasileira, arrastou o mercado local. O Ibovespa encerrou o dia em queda de 0,98%, aos 127.070 pontos, e renovou sua mínima intradiária do ano.

As ações da petroleira registraram a maior queda do dia, mas recuos da Vale e do Banco do Brasil também pesaram. Os preços do petróleo, por sua vez, fecharam com queda de 1%.

No câmbio, o dólar avançou 0,96% e fechou cotado a R$ 4,981. No exterior, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar em relação a outras moedas fortes, ficou praticamente estável.

Nos Estados Unidos, o S&P 500, o Dow Jones e o Nasdaq recuaram 0,65%, 1,16% e 0,18%, respectivamente, após a divulgação de dados de mistos de mercado de trabalho que mostrou mais novas vagas do que o esperado, com uma taxa de desemprego local crescente.


Com Reuters e Bloomberg


Folha de São Paulo

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